Histórias de Moradores de Jaú

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade de Jaú.


História do Morador: Armando Moretti
Local: São Paulo
Publicado em: 08/09/2003






História de Vida

História:
Meu nome é Armando Moretti, nasci em Barra Bonita, interior do estado de São Paulo, no dia dois de junho do ano de mil novecentos e vinte e três. Meu pai se chamava José Moretti, e minha mãe, Cesira Posatto Moretti. Nossa casa em Barra Bonita era muito modesta, casa de pobre mesmo. Fui para Jaú com oito anos de idade, em mil novecentos e trinta e um. Em Jaú eu ia na escola. Repeti o primeiro ano, passei o segundo e o terceiro só cursei durante dois meses.

Precisei parar de estudar para ir trabalhar e ajudar nas despesas da casa. Fui trabalhar com meu pai na Fazenda Marcelo Prado; lá nós morávamos numa casa pertencente à fazenda. Era uma casa bem modesta, eu carregava tijolos e lavava pratos num riacho próximo. A infância que tive foi muito pobre, brincava na rua com as crianças da vizinhança. Desde essa época eu já ajudava a família, e todos os dias eu levava comida para o meu pai na Ponte de Barra Bonita, ele estava trabalhando na construção da ponte de Barra Bonita para a passagem das balsas. Meu pai era chefe de construção, e minha mãe só cuidava da casa e dos filhos.

Depois nós mudamos para São Paulo, isso em mil novecentos e trinta e cinco. A irmão dele já estava trabalhando aqui como doméstica e ela nos incentivou a vir morar aqui. Chegando em São Paulo nós fomos morar no bairro do Bixiga, na rua Japurá, em um cortiço. A casa era abaixo da rua, e quem passava na rua olhava tudo dentro de casa, porque "pisava" por cima de nós. A casa era composta de um cômodo e cozinha, e lá nós morávamos em dez pessoas. Mas o cômodo era grande, e nós o dividíamos com cortinas. Depois fomos para o Brás, morar na rua João Boemer. Meu pai era chefe de construção do Banco São Paulo. No início ele trabalhou no Instituto Biológico Vicente Nigro, e depois ele foi trabalhar na construção do Banco São Paulo, na rua São Bento com a rua XV. E eu ia engraxar sapatos, com a minha caixinha, onde hoje é o Mappin, na rua Barão de Itapetininga.

Depois de engraxar eu sempre ia buscar frutas e verduras no Mercado Municipal, os caminhoneiros davam para a gente. Eu chegava em casa tarde da noite, e fazia isso todos os dias, para poder entregar dinheiro em casa e minha mãe fazer comida. Nós éramos em dez irmãos, e só eu e mais uma trabalhávamos, isso em mil novecentos e trinta e seis, aproximadamente. Depois eu e meu irmão achamos um serviço de niquiladores na Rua do Gasômetro, Lá eu trabalhei dois anos. Depois fui trabalhar na Matarazzo, em mil novecentos e quarenta, onde trabalhei durante cinco anos. Depois eu saí de lá e fui trabalhar na fábrica de parafusos Santa Rosa, e quando saí fui trabalhar na Vila Mariana, numa metalúrgica que fabricava tampinhas de remédio, e eu ficava na máquina de prensa. Minha adolescência foi só trabalhar, porque eu comecei a trabalhar com doze anos.

A única diversão era ir no cinema ou jogar futebol, era desse jeito que a gente se divertia. O que era bom eram os carnavais, lá no cortiço aconteciam muitos bailes, tudo no largo do cortiço. Todos os sábados tinha gente tocando sanfona. Apesar de trabalhar tanto eu ganhava muito pouco, quinhentos réis por hora, naquele tempo. Tive também breve passagem pelo jornal italiano, lá eu ganhava trezentos réis por hora como impressor. Naquela época tinha só rádio, aqueles rádios com olho mágico. Eu ouvia basicamente música e futebol. Era esse negócio de samba, carnaval e noticiário de guerra, porque em quarenta e dois, quarenta e três foi a II Guerra Mundial.

Eu participei do exército em mil novecentos e quarenta e três, no final da Guerra. Era para eu ter ido para a Itália, mas não deu tempo, porque a Guerra acabou. Eu estava com vinte anos. Naquele tempo se a gente quebrava uma xícara tinha que pagar um tostão por mês, e até não acabar de pagar não se podia sair do exército. O quartel era ali no Parque Dom Pedro. Era aquela vida casa-exército-casa. Depois do exército eu já comecei a trabalhar registrado, conforme a lei. Eu saí do exército com vinte e um anos. Foi então que eu comecei a trabalhar em metalúrgicas. Só parei de trabalhar nesse ramo quando casei. Conheci minha esposa através de nossa proximidade, nós éramos vizinhos, cinqüenta metros de distância.

Antes dela eu tive outras namoradas, mas só para passar tempo, daquelas para namorar no muro do cemitério São Paulo, dançar, beijar. É engraçado que eu conheci minha mulher através da leiteria da mãe dela, eu ia lá comprar balas para outras garotas... E acabei namorando ela. Comecei a dar em cima até que ela aceitou. Nós demos o primeiro beijo quando nós casamos, a irmã dela ia conosco no cinema segurar vela. Depois de sete meses de namoro nós casamos, em mil novecentos e quarenta e sete. Eu tinha vinte e quatro e ela vinte e três anos. A mãe dela nos emprestou um dinheiro e nós compramos um bar na rua Cel. Emídio Piedade, na esquina com a rua Mendes Júnior. A leiteria ficou sendo na R. Carlos de Campos, a minha sogra deu para mim e o meu cunhado, que casou com a Branca, irmã da minha esposa.

Depois nós compramos um bar na rua Santa Rita, mas a sociedade não deu certo porque ele gastava todo o dinheiro que nós ganhávamos no bar. Então nós tivemos que entregá-lo à proprietária. Aí eu fui trabalhar com o meu pai na Matarazzo. Entrei como "meia-colher", meio oficial de pedreiro, e depois fui passando de categoria: chefe de pedreiro, primeira categoria, especializado, oficial especializado, encarregado. Depois de encarregado passei a chefe, depois a supervisor. Então a tecelagem da rua Joly fechou, e eles queriam me mandar para o Belém, mas eu não quis ir, e daí me aposentei definitivamente, com quarenta e nove anos de idade e trinta e quatro de serviço. Nós tivemos duas filhas, e um filho que não deu certo. Esse filho nós fomos obrigados a abortar.

Foi desse tempo para cá que ela começou a ter problemas psiquiátricos. Ela trabalhava muito, e não quis ter mais um filho. Naquele tempo era fácil encontrar médicos que faziam abortos. Nós nos arrependemos, porque ele seria o nosso filho homem. Ela era prespontadeira, e fazia sapatos em casa, só não punha a sola. Eu trabalhava dia e noite na Matarazzo. A doença dela foi de repente. Nós fomos para Aparecida do Norte, e depois logo em seguida, em mil novecentos e sessenta, ela ficou doente, sendo internada na Vila Mariana. Eu acho que foi devido ao aborto. Depois foi internada em Ribeirão Pires, depois na Vila. Mariana, Vila. Formosa, Santana (duas vezes) e a última vez na Vila Mariana. Aí compramos a minha casa com inquilino, mas era casa muito velha.

Assim eu pouco a pouco fui reformando. Isso em mil novecentos e cinqüenta e cinco. Naquele tempo até que era fácil adquirir imóveis. Como o inquilino tinha que sair, eu precisei indenizá-lo. Naquela época foi uma quantia alta. E fomos reformando a casa, fazendo o que precisava, até ela ficar quase nova. Então compramos a casa em Mongaguá, a qual temos até hoje. Nós tivemos a idéia de comprar a casa através da influência do Sr. Francisco, marido da Dona Ida, e ele já tinha casa lá, e netão nós compramos um terreno com um barracão, que era como uma casa de madeira. Isso em mil novecentos e setenta e dois, depois que me aposentei. Construí a casa com dinheiro que recebi da Matarazzo (de acordo). Nessa época ainda pegava alguns serviços com diretores da Matarazzo. Ficava lá uma semana, voltava para casa no domingo, e na segunda-feira voltava para o trabalho.

Era muito longe, em Riacho Grande. No começo do casamento eu trabalhava dia e noite, naquele tempo eu não sabia o que era domingo. A minha primeira filha veio em mil novecentos e quarenta e nove, e a segunda, em mil novecentos e cinquenta e dois. Quando viemos morar nesta casa que estamos até hoje, a Elizabeth tinha sete anos, e a Rosely, cinco. Elas ainda iam na escola. A Rose estudou o comercial escrever a máquina, essas coisas. A Beth também, só que a escola era na rua Joly. Depois que elas tiraram o diploma começaram a trabalhar e a ajudar a sustentar a casa. Foi quando começaram a trabalhar na loja de roupas do Sr. Fima, a Beth era chefe das balconistas.

A Rose começou de um lado, de outro, na rua Carlos de Campos, operando máquinas de confecção. Depois ela saiu, foi trabalhar na empresa de transportes Venâncio Aires. Trabalhou seis anos lá e depois casou. E a Beth também trabalhou até o último mês antes de casar. Eu nunca me opus aos maridos que elas escolheram. O Rodolfo (Rose) freqüentava o centro espírita onde a Rose era mãe-de-santa e dava consultas para o público. O pai dele também trabalhava na Matarazzo, e eu era chefe dele, ele era pintor e eu, chefe de construção. O Rodolfo e o irmão dele (Reinaldo) iam buscar ele todos os dias. Eles tinham um Chevrolet velho. A Rose e o Rodolfo casaram bem, eles pouparam dinheiro juntos. Já a Beth dava todo o dinheiro em casa, mas eu também ajudava ela com tudo. Elas sempre foram moças caseiras.

A Beth casou com o Ricardo, e ele tinha uma borracharia na Rua Cajurú, no Brás. Depois ele passou para a rua Almeida Lima, onde a firma pegou fogo. Depois vieram os netos, nos dando muita alegria. Sempre sem problemas, com saúde. São: Luciana, Rogério, Paula, Regiane, Natalia, Rosane. Seis netos. A ditadura possibilitou que eu comprasse essa casa, a casa de Santos, o meu carro. Era melhor porque os patrões eram policiados e não podiam explorar os funcionários. Só não se podia andar em turmas, ficar pelas esquinas, a polícia não deixava. Não podia era ficar parado, ficar fazendo escarcel. Eles já achavam que era comunista. Mas com a gente nunca aconteceu nada, a cavalaria andava na rua, mas eu preferia que até hoje tivesse aquilo. Os corruptos iam para a cadeia e a polícia matava, ou os desordeiros iam para outro país fugidos, como o Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Quem era pego pela polícia é porque explorava os outros.

Tanto é que o Jânio Quadros pediu demissão porque ele viu que era muita pressão em cima do governo. Os manda-chuvas mandavam mais que o governo. E nós sempre trabalhando, sem folga. Mas quem trabalhava estava sempre de bem com tudo. Não é como hoje que falta emprego. Naquele tempo a gente podia escolher o emprego que queria. E a vida, na minha opinião, era melhor. Mas é isso aí, a vida foi dura. Nunca tive nome na delegacia, só trabalhei a vida toda. Mas a melhor fase da minha vida, mesmo, foi quando me aposentei e tinha carro, a gente viajava, ia em restaurantes, com o meu genro Ricardo. A gente saía bastante. Depois ele faleceu e tudo acabou. Eu acho que não fui uma pessoa completamente feliz, pois me diverti pouco, o mais que fiz foi trabalhar. Hoje não espero mais nada da vida, além da velhice. Na loteria já não ganho mais, nem no Silvio Santos. O negócio é viver como Deus quer.

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